2026 se destaca como um dos anos mais decisivos na história recente da Amazônia. A humanidade já ultrapassou seis limites planetários, e a maior floresta tropical do mundo atingiu um ponto de inflexão. Além desse ponto, vastas áreas correm o risco de perder suas funções ecológicas, com consequências devastadoras para o clima, a regulação dos ciclos da água e a vida em todas as suas formas.
Esta não é uma crise isolada ou acidental. Em sua essência, ela reflete uma crise de valores e identidade. A economia global continua a reforçar os paradigmas que nos trouxeram até aqui, tratando a humanidade como algo separado do mundo vivo, competitivo em vez de relacional. O neocolonialismo opera não apenas por meio da extração, mas também restringindo nossa imaginação coletiva, minando a possibilidade de futuros além da superprodução, da desapropriação e da dominação.
À medida que os mercados globais de carne, petróleo, ouro, cocaína, os chamados minerais críticos e terras raras se expandem, os territórios amazônicos são cada vez mais tratados como zonas de sacrifício a serviço de um modelo econômico incompatível com a estabilidade planetária. Contra essa lógica, os povos indígenas não apenas resistem, como também defendem seus territórios e sustentam modos de se relacionar na teia da vida que desafiam o modelo dominante em sua essência. Eles oferecem não apenas abordagens alternativas de governança e segurança, mas outras formas de ser humano.
A seguir, apresentamos sete desafios interligados que Amazon Watch Considera-se fundamental para compreender o que está em jogo. O que acontecer em 2026 determinará se a justiça climática continuará sendo possível ou se tornará apenas um slogan vazio.
1. Geopolítica, multilateralismo ou intervencionismo renovado
A Amazônia encontra-se numa encruzilhada entre a cooperação multilateral e o intervencionismo renovado. Marcos regionais como a Declaração de Belém e os Acordos de Bogotá sinalizam um esforço sem precedentes por parte dos governos amazônicos para enfrentar coletivamente desafios comuns, incluindo o desmatamento, o crime organizado e o colapso climático, com base no direito internacional.
Ao mesmo tempo, a crescente abordagem focada na segurança, muitas vezes moldada por potências externas, ameaça militarizar a região, mercantilizar a natureza e minar a soberania. O recente sequestro de Nicolás Maduro pelos EUA é um exemplo disso. expõe os riscos crescentes das doutrinas intervencionistas.. O possibilidade de estratégias de segurança Inspirado no Plano Colômbia, que visa ampliar o controle externo sobre a Amazônia e seus recursos, é uma realidade muito concreta.
A história demonstra que a militarização não protege as florestas. Ela desloca a violência, aprofunda os conflitos e mina a governança indígena e comunitária. O futuro da Amazônia depende da rejeição das forças coloniais como princípio de governo e da reafirmação da soberania, da cooperação e de abordagens baseadas em direitos.
2. Petróleo e caminho de transição
O petróleo continua sendo uma das forças mais destrutivas na Amazônia, causando contaminação, conflitos e danos sociais e ambientais a longo prazo. Em 2025, novos projetos petrolíferos avançaram no Brasil e no Equador, enquanto A resistência indígena interrompeu mais uma vez o Bloco 64 no Peru.Em 2026, as rodadas de licitação de petróleo subandinas e do sul do Equador ameaçam reacender conflitos regionais com o país. Nações indígenas defendendo seus territórios.
Os governos enfrentam uma escolha: aprofundar a dependência dos combustíveis fósseis ou ouvir aqueles que protegem a floresta de danos irreversíveis. Não existe transição energética justa construída sobre a desapropriação de terras indígenas ou zonas de sacrifício ecológico.
Mas resistir a novos projetos não basta. Décadas de exploração de petróleo, grande parte dela viabilizada por bilhões de dólares em financiamento de instituições financeiras internacionais, deixaram profundas dívidas ambientais e de direitos humanos que permanecem sem solução. Na Colômbia, o governo ainda tem a obrigação de implementar a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre os danos relacionados ao petróleo, uma oportunidade que poderia marcar um ponto de virada na forma como a região enfrenta e repara as injustiças históricas. Enquanto isso, corporações como A Chevron continua a esquivar-se da responsabilidade pela contaminação em massa..
Após a COP30, o mundo não pode fingir que a expansão da produção de petróleo é compatível com a segurança climática. Segurança climática real significa reduzir rapidamente a dependência de carvão, petróleo e gás. Primeira Conferência Internacional sobre a Eliminação Progressiva dos Combustíveis FósseisA reunião, que será realizada em Santa Marta, na Colômbia, será um teste decisivo de vontade política. A Califórnia, uma grande importadora de petróleo bruto da Amazônia, tem a opção de participar desse processo, tanto internacionalmente quanto internamente, à medida que o Senado estadual avança com a implementação da SR51, que exige uma investigação sobre o papel desproporcional da Califórnia no consumo de petróleo bruto amazônico e propõe caminhos para a eliminação gradual das importações.
3. Eleições e vontade política: a democracia sob pressão.
As eleições presidenciais no Brasil, na Colômbia e no Peru irão moldar decisivamente o futuro da Amazônia. A Colômbia declarou a Amazônia uma zona proibida para novas atividades de extração, mas a implementação dessa medida ainda é frágil.O Brasil fortaleceu algumas proteções ambientais ao mesmo tempo em que promoveu novos projetos de combustíveis fósseis e mineração. O Peru, por sua vez, enfraqueceu sistematicamente a governança ambiental e facilitou a expansão de economias ilícitas.
Essas eleições determinarão se os governos fortalecerão a proteção e a cooperação regional ou aprofundarão a desregulamentação e a extração.
A Amazônia tornou-se um teste para a própria democracia, questionando se os governos agem em prol do interesse público ou a serviço do poder extrativista e até mesmo de economias ilícitas.
4. Crime organizado, falsas soluções e segurança ambiental
A mineração ilegal, a exploração madeireira, a grilagem de terras e o narcotráfico estão entre as ameaças que mais crescem na Amazônia. O reconhecimento por si só não basta. Respostas militarizadas e securitizadas têm falhado repetidamente, muitas vezes aumentando a violência e deixando as redes criminosas intactas.
As soluções sustentáveis devem priorizar a governança territorial indígena, o controle comunitário e a cooperação regional.Os compromissos assumidos em Belém e Bogotá oferecem um roteiro, mas 2026 determinará se os governos irão além da retórica e enfrentarão os crimes ambientais como uma crise estrutural política, econômica e ecológica, e não meramente como um problema de segurança.
Isso exigirá que a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica lidere um processo participativo para construir estratégias holísticas de segurança regional, fortalecer a governança territorial indígena e apoiar alternativas econômicas.
Em nível global, as negociações no âmbito da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional oferecem uma oportunidade para tratar os crimes ambientais como delitos transnacionais graves. Em 2026, um roteiro concreto para um protocolo contra crimes que afetam o meio ambiente deve avançar, com a participação dos povos indígenas.
5. Minerais críticos e novas fronteiras extrativas
Com a aceleração da demanda global por minerais ditos críticos e terras raras, a pressão sobre a Amazônia se intensifica. Sob o pretexto da transição verde, novas zonas de sacrifício estão sendo mapeadas em toda a região, perpetuando a mesma lógica extrativista que historicamente impulsionou o desapossamento, o deslocamento e a violência.
Isso não representa uma ruptura com o passado, mas sim a expansão do capitalismo verde, um modelo econômico que reformula a extração como ação climática, transferindo seus custos sociais e ecológicos para o Sul Global. Sem fortes salvaguardas, consentimento livre, prévio e informado, e proteção integral aos territórios e defensores indígenas, a chamada transição corre o risco de aprofundar a injustiça.
Uma transição justa em 2026 não pode ser construída sobre concessões mineiras impostas. Ela deve confrontar o consumo excessivo, reduzir a demanda por materiais e priorizar a autodeterminação dos povos indígenas como fundamento inegociável das soluções climáticas.
6. Agronegócio, soja e expansão da infraestrutura
O agronegócio industrial, particularmente as cadeias de suprimento de soja e gado, continua sendo um dos motores mais poderosos e menos contestados da destruição da Amazônia, especialmente no Brasil. Enquadrado como desenvolvimento ou segurança alimentar, a expansão do agronegócio é inseparável da grilagem de terras, do desmatamento e da violência contra povos indígenas e comunidades tradicionais.
Megaprojetos de infraestrutura como FerrogrãoAs hidrovias industriais e os portos de exportação, juntamente com outros canais, são projetados para atender aos mercados globais de commodities. Elas devastam florestas, poluem rios e consolidam um modelo econômico que trata a Amazônia como um corredor logístico em vez de um território vivo.
Sem confrontar o poder político do agronegócio e sua influência sobre as políticas de uso da terra, enquanto se promovem modelos econômicos que priorizam as pessoas em detrimento do lucro, qualquer alegação de proteção à Amazônia permanece incompleta. “Caravana de Respostas” A ida a Belém para a COP30 marcou um momento crucial na construção de uma frente unida que continuará a crescer em 2026.
7. Incêndios e a política de prevenção
Os incêndios continuam sendo uma ameaça imediata e visível.Não se tratam de desastres naturais, mas sim de consequências políticas impulsionadas pela apropriação de terras, queimadas ilegais e fiscalização ineficaz. A prevenção, por meio da regularização fundiária, sistemas de alerta precoce, fiscalização rigorosa e apoio a brigadas de incêndio indígenas e comunitárias, determinará se 2026 marcará uma virada ou mais um ano de catástrofe evitável.
Todos esses desafios convergem para uma verdade central. O conhecimento indígena e os sistemas de governança estão entre as barreiras mais eficazes contra o desmatamento, a violência e a expansão extrativista.A proteção da Amazônia depende do pleno reconhecimento e da garantia dos direitos, da autonomia e da autodeterminação dos povos indígenas.
Isso exige mais do que compromissos simbólicos. Exige direitos fundiários seguros, proteção para os defensores da terra e apoio sustentado. apoio político e econômicoe respeito genuíno pelas instituições indígenas. Sem essas condições, qualquer resposta à crise amazônica permanecerá parcial e frágil.
2026 é um ano decisivo para a Amazônia.





