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A Amazônia está mais uma vez envolvida em uma perigosa disputa geopolítica. O lançamento da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSS 2025) ocorre em um momento particularmente frágil para a região: retórica abertamente belicosa contra a Venezuela, ataques armados contra embarcações no Pacífico e no Caribe disfarçados de operações “anticrime” e um preocupante silêncio diplomático diante de claras violações do direito internacional, com exceção do presidente colombiano Gustavo Petro, praticamente sozinho em sua condenação.
Tudo isso acontece enquanto o Equador rejeita, em referendo, o retorno das bases militares americanas, e enquanto Brasil, Colômbia e Peru, os três países com a maior parte do território amazônico, caminham para eleições decisivas em que a segurança e o controle territorial serão centrais no debate público.
Nesse contexto, a estratégia de Washington diz menos sobre crime organizado do que aparenta e muito mais sobre uma tentativa de restaurar uma hegemonia hemisférica que já não se adequa à realidade latino-americana. O documento, mais uma vez, coloca a região dentro de um “Hemisfério Ocidental” que deveria permanecer sob o “poder natural” dos Estados Unidos. O roteiro é familiar: uma Doutrina Monroe reciclada para o século XXI, agora envolta na linguagem do “narcoterrorismo”, da contenção da migração e da luta contra as organizações criminosas transnacionais.
Mas, nas entrelinhas, a mensagem é clara: assegurar cadeias de suprimentos críticas, garantir o acesso a minerais estratégicos e proteger os recursos naturais, incluindo os da Amazônia, do avanço de potências externas, particularmente a China. Não é coincidência que a Estratégia Nacional de Segurança 2025 coincida quase que exatamente com a nova estratégia da China para a América Latina, que descreve a região como uma “terra maravilhosa, cheia de vitalidade e esperança” e apela a uma linguagem de cooperação, embora com um interesse igualmente explícito em controlar “recursos estratégicos”.
A abordagem dos EUA é ainda mais alarmante, visto que a Amazônia atravessa um ciclo simultâneo de crise climática, expansão extrativista, economias ilícitas e violência territorial. Redes transnacionais ligadas ao ouro ilegal, à cocaína e a outros mercados globais tomaram posse de vastas áreas, impondo suas próprias regras, onde o Estado chega tarde ou sequer chega. Soma-se a isso a pressão de governos que promovem a mineração e a extração de petróleo em áreas altamente sensíveis, aprofundando conflitos sociais e enfraquecendo ecossistemas essenciais para a estabilidade climática global.
Diante desse cenário, a resposta de Washington não é nem nova nem inovadora. Trata-se de uma repetição de receitas fracassadas: mais armas, mais operações especiais, mais securitização de problemas que são essencialmente sociais, econômicos e ambientais. A Estratégia Nacional de Segurança 2025 evoca inevitavelmente o Plano Colômbia, a Iniciativa Mérida e toda uma era de intervenções que militarizaram as políticas públicas sem transformar as condições que sustentam o crime organizado. Longe de enfraquecê-lo, essas estratégias fragmentaram e intensificaram o poder criminoso, sem afetar os enormes lucros das economias ilícitas.
A Amazônia demonstra diariamente que a segurança não se constrói com helicópteros, nem com pulverização aérea, nem com a criminalização daqueles que, impelidos pela falta de alternativas, dependem da coca ou do ouro. A verdadeira segurança exige o que as comunidades indígenas, camponesas e ribeirinhas vêm repetindo há décadas: direitos territoriais sólidos, economias legais viáveis, acesso efetivo à justiça, presença estatal constante e participação comunitária. São essas comunidades que mantêm a floresta em pé e são elas que pagam o preço quando os governos optam por respostas militarizadas em vez de construir governança.
Hoje, a Amazônia encontra-se numa encruzilhada. Pode optar por abordagens de segurança abrangentes baseadas na cooperação regional e na governança comunitária, como sugerem os esforços recentes no âmbito da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, promovida pela Colômbia e pelo Brasil. Ou pode seguir o caminho proposto por Washington: uma versão ampliada do Plano Colômbia, aplicada a toda a bacia amazônica e concebida de fora para dentro.
O referendo equatoriano mostrou que os povos podem resistir a essas lógicas. Em contrapartida, a prolongada crise política do Peru, agravada por iniciativas legislativas que enfraquecem o Estado de Direito, criou um terreno fértil para a tomada criminosa das instituições; o governo de Daniel Noboa flerta com soluções militarizadas; e a Venezuela continua a afundar em sua própria espiral de corrupção, extrativismo e violência.
Neste momento crítico, a América Latina está decidindo seu futuro: em referendos, eleições, debates públicos, resistência territorial e construção de autonomias locais. Esse é o caminho que precisa ser fortalecido. O que a região, e a Amazônia em particular, não precisa é de um retorno a esquemas de tutela externa que a reduzam a um espaço para projeção militar e fornecimento de recursos estratégicos.
A resposta que a Amazônia exige é diferente. Não novas guerras, mas um novo pacto ecossocial. Políticas de segurança que abordem as causas estruturais da violência: desigualdade persistente, ausência do Estado, corrupção, impunidade e falta de oportunidades econômicas reais. Segurança com justiça, com serviços públicos robustos, com ciência, com economias locais e com respeito ao direito internacional e à autodeterminação dos povos.
Diante de uma estratégia estadunidense voltada para o passado, a América Latina tem a possibilidade, e a responsabilidade, de olhar para o futuro. Um futuro em que a Amazônia não seja um território a ser controlado, mas um território a ser cuidado. Onde a segurança não justifique a geopolítica, mas garanta uma vida digna. E onde as decisões que definem o destino do continente sejam construídas a partir dos territórios e apoiadas por Bogotá, Lima, Quito, Caracas e Brasília, e não impostas por Washington.
Se a história nos ensina alguma coisa, é esta: toda vez que a Amazônia foi militarizada em nome da ordem, a floresta se perdeu, seus povos se perderam e a democracia se perdeu. Repetir esse caminho não é a solução.





