Amazon Watch

Ferrogrão reacende conflito entre o governo e os povos indígenas na COP30

20 de novembro de 2025 | AFP

Os povos indígenas que protestaram durante as negociações climáticas da ONU em Belém, no Brasil, citaram entre suas principais queixas um projeto ferroviário que ligaria Mato Grosso ao Pará e atravessaria a floresta amazônica.

Para o agronegócio, o Ferrogrão, como é conhecido o projeto ferroviário, representaria uma revolução logística.

Os críticos veem nisso mais um projeto de infraestrutura gigantesco que ameaça a Amazônia e mina o compromisso declarado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o meio ambiente e os direitos indígenas.

Qual é a ideia por trás do Ferrogrão?

O Brasil é o maior exportador mundial de soja e milho, grande parte dos quais é produzida no Mato Grosso.

Hoje em dia, essa carga percorre longas distâncias de caminhão até portos marítimos no sul ou portos fluviais no norte.

Há mais de uma década, governos tentam impulsionar a construção de uma ferrovia de 933 quilômetros que ligaria a cidade de Sinop, no Mato Grosso, ao porto de Miritituba, no Pará.

A partir dali, os grãos e leguminosas chegariam ao rio Amazonas e ao Oceano Atlântico.

O que dizem os apoiadores do projeto?

Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Confederação Brasileira da Agricultura e Pecuária (CNA), principal organização de produtores agrícolas do país, disse à AFP que a ferrovia era “essencial para garantir a competitividade do agronegócio brasileiro”.

Mato Grosso, responsável por cerca de 32% da produção nacional de grãos, “precisa de uma rota logística mais eficiente para acompanhar o crescimento do setor”, enfatizou ela.

Lopes afirmou que a ferrovia deverá reduzir os custos logísticos das exportações de grãos em até 40%, além de diminuir o tráfego rodoviário e as emissões de carbono associadas.

O que dizem os críticos?

Mariel Nakane, do Instituto Socioambiental (ISA), disse à AFP que a ferrovia afetaria terras indígenas e alimentaria o desmatamento e a invasão territorial.

Ela acrescentou que a mudança do agronegócio na última década, com a exportação de produtos a preços mais baixos através dos portos fluviais do norte, já transformou o rio Tapajós, onde se localiza o porto de Miritituba.

“As comunidades ribeirinhas estão sendo expulsas”, lamentou ela. “Elas não conseguem mais pescar em algumas áreas, porque agora tudo gira em torno das operações portuárias e do tráfego de barcaças. Elas são atropeladas pelas barcaças.”

Nakane afirmou que a construção do Ferrogrão visa quintuplicar o volume de mercadorias transportadas por essa rota.

O especialista teme que a falta de controle prevaleça em áreas já vulneráveis ​​ao desmatamento.

Ela argumentou que os procedimentos de licenciamento atuais não são suficientes para proteger a floresta e seus habitantes.

Nakane também mencionou outros projetos controversos, como a exploração de petróleo ao longo da Margem Equatorial – cuja fase de perfuração exploratória foi autorizada – perto da foz do Rio Amazonas, e os planos para pavimentar a BR-319, uma importante rodovia na floresta tropical.

“É muito fácil para o governo afirmar que está comprometido com a agenda climática, mas depois varrer esses projetos controversos para debaixo do tapete”, disse ela.

Por que isso veio à tona durante a COP30?

Com a atenção mundial voltada para Belém, onde ocorre a COP30 para discutir as mudanças climáticas, as comunidades indígenas buscaram chamar a atenção para suas reivindicações, incluindo a proibição do Ferrogrão.

Os manifestantes também estão furiosos com um decreto assinado por Lula em agosto que designa os principais rios da Amazônia, incluindo o Tapajós, como prioritários para a navegação de cargas e a expansão de portos privados.

“Não vamos permitir isso, porque esta é a nossa casa, o nosso rio, a nossa floresta”, disse a líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku.

“O rio é a mãe dos peixes.”

Qual é o status atual do projeto?

O Ibama, órgão ambiental brasileiro, afirmou em comunicado à AFP que “o processo de licenciamento para o Ferrogrão está em fase inicial, com avaliação de sua viabilidade ambiental”.

Esse processo foi suspenso em 2021 pelo Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso, enquanto o tribunal analisava uma contestação constitucional aos planos de alteração dos limites do Parque Nacional Jamanxim, no Pará, para permitir a construção da ferrovia.

Moraes permitiu que o caso fosse retomado em 2023, e o tribunal começou a analisá-lo novamente no mês passado. O relator votou a favor de permitir que o projeto prosseguisse.

No entanto, a audiência está atualmente suspensa depois que o juiz Flávio Dino solicitou mais tempo para analisar o caso.

POR FAVOR COMPARTILHE

URL curto

Doação

Amazon Watch baseia-se em mais de 28 anos de solidariedade radical e eficaz com os povos indígenas em toda a Bacia Amazônica.

DOE AGORA

TOME A INICIATIVA

Pare a Mega Ferrovia Ferrogrão!

TOME A INICIATIVA

Fique informado

Receber o De olho na amazônia na sua caixa de entrada! Nunca compartilharemos suas informações com ninguém e você pode cancelar a assinatura a qualquer momento.

Subscrever