Em fevereiro de 2026, mais de 60 líderes indígenas do Brasil, Colômbia, Equador e Peru se reuniram na Amazônia peruana para confrontar uma ameaça crescente: a expansão do crime organizado e das economias ilícitas em territórios indígenas. O encontro foi organizado pela AIDESEP Ucayali (ORAU) e Amazon Watch, a reunião produziu o Declaração de Pucallpa, um apelo coletivo para defender a vida, a autonomia territorial e o futuro da Amazônia. A declaração será apresentada no Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas em abril, levando ao cenário global as propostas indígenas para o combate ao crime organizado, a proteção de territórios e a salvaguarda de um dos ecossistemas mais vitais do planeta.
Na reunião, os líderes tinham um propósito claro: moldar uma resposta coletiva ao alcance crescente das economias ilícitas e do crime organizado que ameaçam a sobrevivência dos povos indígenas e o futuro da Amazônia.
Ao longo de dois dias, os participantes compartilharam testemunhos de seus territórios, mapearam a disseminação de atividades ilícitas na região e discutiram estratégias coletivas para fortalecer a governança indígena e a defesa territorial. Eles também buscaram promover alternativas às políticas estatais baseadas na repressão e na militarização – abordagens que se mostraram insuficientes e, em muitos casos, contraproducentes.
“Para nós, tudo está interligado e, portanto, qualquer dano afeta tudo”, disse um líder colombiano no início do diálogo. Essa visão holística, onde território, espiritualidade, comunidade e vida são inseparáveis, deu o tom do que se seguiu. Em jogo não está apenas a segurança territorial, mas a continuidade cultural, espiritual e política dos povos indígenas, e o destino de um dos ecossistemas mais críticos do nosso planeta para a estabilidade climática global.

A expansão do crime organizado
Na última década, o aumento da demanda global por cocaína e a disparada dos preços do ouro impulsionaram o setor. cultivos ilícitos, mineração ilegal, exploração madeireira, tráfico de biodiversidade e tráfico de pessoas e armas em áreas cada vez mais remotas da floresta. Muitas dessas áreas coincidem com territórios indígenas, ricos em biodiversidade e ancorados por uma forte organização comunitária. "É o coração da Amazônia e seus povos que está sob ataque", comentou um analista na reunião.
Em diversos lugares, a governança criminosa se consolidou, como documentamos em nosso recente estudo. Relatório sobre a região tríplice fronteira do Equador, Peru e ColômbiaEm toda a Amazônia, grupos armados como os Comandos de la Frontera, Los Lobos e Comando Vermelho controlam rios e estradas, extorquem comunidades, ameaçam autoridades indígenas e praticam violência sistemática. "Eles tomaram territórios inteiros", disse um líder.
Essa expansão é constantemente acompanhada por corrupção e pela fragilidade – ou mesmo cumplicidade – das instituições estatais. No Peru, um conjunto específico de regulamentações chegou a facilitar a expansão das economias ilícitas.
Não é um problema isolado.
Os participantes enfatizaram que as economias ilícitas raramente operam isoladamente, estando profundamente interligadas com as atividades legais. O ouro ilegal entra nas cadeias de abastecimento formais; estradas, projetos de infraestrutura e concessões de extração podem abrir corredores que as redes criminosas exploram para desapropriar os povos indígenas de seus territórios. Áreas desmatadas para o cultivo de coca, pecuária ou grilagem de terras acabam sendo incorporadas aos mercados legais, enquanto os enormes lucros retornam ao setor formal.
A fronteira entre o ilícito e o “legal” é tênue: ambas as lógicas aprofundam o extrativismo e impulsionam a desapropriação territorial. Essas dinâmicas são alimentadas pela demanda global por commodities como ouro, madeira e terras agrícolas, e pela expansão de estradas e infraestrutura que criam novas fronteiras extrativistas na floresta, conectando a violência local na Amazônia aos mercados internacionais e aos sistemas econômicos extrativistas.
“Não podemos separar isso dos grandes projetos extrativistas; tudo impacta o território simultaneamente”, disse um líder colombiano. Uma líder indígena peruana foi ainda mais direta: “Somos sobreviventes da violência de diferentes formas de extrativismo”.
Os riscos das políticas repressivas
Diante dessa realidade, os governos responderam, em grande parte, com militarização e políticas de interdição mais rigorosasMas essas estratégias se concentram na repressão, deixando intocadas as causas estruturais: pobreza, exclusão, falta de reconhecimento territorial e corrupção.
Na prática, a presença militar muitas vezes aumenta as tensões, expõe as comunidades a abusos, criminaliza as populações locais e enfraquece as autoridades indígenas. Em Remanso, na região de Putumayo, na Colômbia, Uma operação militar resultou em um massacre que ceifou 11 vidas em 2022.No Equador, as operações repressivas contra as próprias comunidades estão em ascensão. De modo geral, a renovada doutrina de segurança dos EUA está levando os países a retornarem a antigas e fracassadas estratégias repressivas de segurança, agora apresentadas como “guerra contra o narcoterrorismo”.
E quando as forças de segurança se retiram, os grupos criminosos frequentemente retornam com ainda mais violência. Como vários participantes deixaram claro, a segurança não pode se basear apenas na repressão. Sem abordar os direitos territoriais, a corrupção e a ausência de alternativas econômicas sustentáveis, as estratégias de repressão correm o risco de reproduzir as próprias condições que permitem que as economias ilícitas prosperem.
A própria vida está em risco.
As consequências são profundas: rios contaminados com mercúrio, florestas devastadas, deslocamentos forçados, ameaças e assassinatos de líderes indígenas. A Amazônia se tornou uma das regiões mais perigosas do mundo para aqueles que defendem seu território. “Só no Peru, perdemos 36 líderes. No meu próprio povo também. Qualquer um que se oponha a essas atividades corre risco”, disse um líder peruano.
Mas os danos vão além dos ambientais e físicos. Quando um território se fragmenta, a transmissão intergeracional do conhecimento ancestral se rompe, a governança indígena enfraquece e a pressão sobre jovens e famílias para que entrem em economias ilícitas aumenta. A violência fratura a coesão comunitária e fere a espiritualidade. “A própria sobrevivência de nossos povos está em risco”, alertou um líder colombiano.
Autonomia como resposta
Durante a reunião, ficou claro que os povos indígenas não estão esperando por soluções externas. Como as economias ilícitas afetam a vida em sua totalidade, a resposta deve ser igualmente abrangente. De acordo com o direito internacional, os Estados são obrigados a reconhecer e defender o direito dos povos indígenas à autonomia e à autogovernança. Como disse um líder colombiano: “O que deve acontecer é que os Estados reconheçam nossas próprias estruturas e colaborem com elas como iguais, não como subordinados”.
A autonomia é construída gradualmente por meio de instituições e capacidades concretas: criando suas próprias normas, exercendo seus próprios sistemas de justiça, garantindo o controle territorial, defendendo a cultura na educação pública, assegurando a saúde intercultural e construindo projetos econômicos sustentáveis. Em toda a região, as comunidades estão consolidando guardas indígenas, sistemas de monitoramento comunitário e mecanismos de controle territorial — entre eles, Guarda Charip do povo Wampis.

Em Flor de Ucayali, no Peru, a produção orgânica e as economias locais oferecem alternativas concretas aos mercados ilícitos. Em Sarayaku, no Equador, o povo Kichwa conteve o avanço do extrativismo e das economias ilícitas por meio do conceito de Kawsak Sacha (a Floresta Viva). “Temos isso como uma proposta política e construímos nossa governança e economia a partir dela.”
Os participantes foram igualmente unânimes em afirmar que o fortalecimento da autonomia exige a plena participação e liderança das mulheres indígenas. As líderes femininas reivindicaram participação política garantida, maior independência econômica e atenção direta às formas específicas de violência que enfrentam como defensoras territoriais.
“Precisamos eliminar nossas fronteiras; as economias ilícitas não reconhecem fronteiras. Devemos trabalhar juntos”, disse um líder da ORAU. Um exemplo é a comissão transfronteiriça entre os povos Ucayali e o Brasil na região de Yuruá, que exige que ambos os países garantam seus direitos territoriais.
Participação indígena na tomada de decisões globais
A reunião foi concluída com a aprovação de Declaração de Pucallpa, que reafirma que a autodeterminação, o autogoverno e o controle territorial efetivo são ferramentas essenciais para combater as economias ilícitas. Esses direitos são reconhecidos internacionalmente, mas sua implementação permanece dolorosamente limitada.
Os povos indígenas exigem que os Estados combatam a corrupção, reconheçam plenamente os territórios indígenas, protejam os defensores e respeitem os sistemas indígenas de justiça e segurança. Eles também apelam à comunidade internacional para que reconheça que o crime organizado na Amazônia representa uma ameaça para o nosso clima global.
No entanto, as políticas internacionais sobre crime organizado e drogas continuam a ser elaboradas sem a sua participação. “Os povos indígenas não podem continuar a ser vistos apenas como vítimas ou beneficiários de programas externos. Eles são autoridades territoriais com propostas concretas”, afirmou um líder peruano. Não se trata apenas de direitos, mas de sobrevivência. Sem a sua participação direta, nenhuma política protegerá verdadeiramente a vida dos defensores ou o futuro da Amazônia.
É por isso que, juntamente com eles, Amazon Watch Exige-se a participação plena e efetiva dos povos indígenas em espaços como o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (ACTO). A Convenção 169 da OIT, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Declaração Americana são inequívocas: os povos indígenas devem participar da concepção, implementação e avaliação de todas as políticas que os afetam.
Uma chamada urgente
Sem povos indígenas autônomos e a plena liderança das mulheres, não haverá solução climática nem justiça duradoura para a Amazônia. Uma delegação indígena levará essas propostas e reivindicações ao Fórum Permanente das Nações Unidas e, ainda este ano, à Conferência da ONU sobre Crime Organizado Transnacional.
A defesa do território é, acima de tudo, a defesa da vida. E hoje, mais do que nunca, essa defesa exige que ouçamos e apoiemos aqueles que protegem a Amazônia há gerações.





