“Digo isso porque sei que se você quer cuidar da floresta, precisa investir em nós - povos indígenas - porque ninguém cuida melhor da floresta do que nós.”
Antonio Dace Munduruku
De acordo com os Munduruku, Karusakaibu é o deus que criou seu povo, os animais e a miríade de seus artefatos culturais. O que muitos não sabem é que nem sempre foram conhecidos como “Munduruku”.
No século 18, o Estado do Pará foi dividido principalmente entre os territórios Kayapó e Munduruku (eles são historicamente inimigos). Os Munduruku eram conhecidos como “os decapitadores” por causa de sua tática implacável de assassinato ao capturar inimigos.
Mais tarde, quando forasteiros começaram a visitar sua região no século 19, eles foram chamados de "Munduruku" - que significa "formigas vermelhas" - por seus inimigos, o povo Parintintin, que viu que eles eram numerosos, notoriamente zangados, atacados em massa e com muita força matar.
O povo Munduruku nunca viveu em paz. Eles são guerreiros; hoje a diferença é que agora lutam com papel e caneta. Eles dizem agora que sua melhor defesa é a palavra e a lei para protegê-los. Nenhuma lei, entretanto, parece impedir os planos tortuosos do governo para projetos destrutivos de barragens na região do Tapajós, onde vivem.
“O governo envia a força nacional, o exército, a polícia federal para cá como se fôssemos criminosos, em vez de enviá-los para onde os crimes realmente acontecem”, disse Antonio Dace Munduruku em uma conversa durante um recente Assembleia Nacional. “O governo continua tentando nos intimidar, mas nunca vamos baixar a cabeça.”
E eles não vão recuar. Os Munduruku se reuniram para discutir estratégias para continuar resistindo aos planos e pressões governamentais.
“O governo nos vê mais como objetos do que como se orgulhar de ainda termos essa floresta viva e em pé”, declarou Antonio. “Digo isso porque sei que se você quer cuidar da floresta, precisa investir em nós - povos indígenas - porque ninguém cuida melhor da floresta do que nós. Se não fosse a gente, o gado e a soja teriam levado toda essa floresta. Sei que somos apenas do tamanho de um grão de areia, mas fazemos uma grande diferença. O ar que você respira vem [da Amazônia]. A água que você bebe vem daqui. E assim, ao nos matar, você está matando a natureza e, portanto, a si mesmos. ”
Com essas mensagens em mente, os Munduruku continuaram da assembléia direto para Brasília para participar de uma mobilização nacional indígena.
Como se não bastasse enfrentar as ameaças concomitantes e manter a luta pelo seu território, o novo ministro de Minas e Energia Eduardo Braga declarou publicamente na mesma semana que a barragem de São Luiz do Tapajós será leiloada até o final deste ano, e que o governo tinha uma “boa relação” com os Munduruku.
Chocados, os Munduruku negaram tal “relacionamento” em entrevista coletiva, reafirmando sua posição contra o enorme complexo de barragens hidrelétricas planejado para o amado Tapajós. Também aproveitaram para solicitar novamente a demarcação de Território de Sawre Muybu (a área que eles próprios vêm demarcando). Sawre Muybu é uma região-chave para o governo porque a barragem de São Luís do Tapajós a afetaria muito e, consequentemente, inviabilizaria o projeto de demarcação, o que é inconstitucional segundo a federação indígena FUNAI.
Os Munduruku protestaram contra a falta de diálogo e especificamente a falta da Consulta Prévia e Informada, conforme requerido pela OIT 169 da constituição brasileira.
“Este plano de represas nos humilha e tira nossa dignidade física e moral!” Antonio gritou em protesto. “Não pode ser considerada energia limpa!”
Os Munduruku continuam lutando e pediram apoio ao mundo.
“Nossa meta agora é buscar apoio internacional porque o Brasil não valoriza a Amazônia. Se você valoriza a Amazônia, então nos apoie porque protegemos a floresta. ”
Antonio Dace Munduruku, em nome do povo Munduruku
CARTA ABERTA DO POVO MUNDURUKU AO POVO BRASILEIRO
Escrevemos em nome do povo Munduruku, aqui representado pelo Chefe Geral dos Munduruku Arnaldo Caetano Kabá; Chefe Juarez, da aldeia Sawre Muybu; Josias Manhuari, coordenador da Associação Indígena Pussurú; Maria Leusa, coordenadora do Movimento Iperêg Ayû; Adalto Kay, chefe guerreiro; Lucivaldo Karo, líder da aldeia Praia do Mangue; e Valdeni Munduruku, líder da aldeia Teles-Pires.
Denunciamos e repudiamos a declaração do Ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, a respeito de seu comentário durante audiência pública no Congresso Nacional em 15 de abril de 2015, na qual afirmou “ter um bom diálogo com os Munduruku” sobre o barragens do rio Tapajós, quando na realidade em nenhum momento o governo ou o estado brasileiro abriu tal espaço de diálogo.
Em vez do diálogo, o governo enviou forçados armados à nossa região para tentar nos intimidar, garantindo que pesquisadores [pudessem] realizar estudos [de viabilidade de barragem] em nosso território, mesmo contra a nossa vontade.
Por isso, em passadas assembléias e protestos, já protestamos contra a construção dessas barragens em nossos rios, que ameaçam nosso modo de vida. Através desta carta, reiteramos que não aceitamos este projeto de morte por parte do governo.
Afirmamos que buscamos o diálogo com o governo no início do ano, quando entregamos às mãos do Ministro Miguel Rosseto, do gabinete do Secretário-Geral da Presidência, um protocolo de consulta elaborado pelo povo Munduruku, no qual expressamos como nós procuram ser consultados e para os quais NUNCA obteve resposta do governo federal.
Aproveitamos para exigir a demarcação da Terra Indígena Sawre Muybu, na bacia do Médio Tapajós.
Queremos reafirmar que não aceitaremos esses projetos em nossos territórios e que resistiremos bravamente [sua construção] por nossas vidas.
Serra
Serra
Serra
Carta traduzida por Diana Oliveira





