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Uma nova corrida do ouro ameaça a Amazônia.

6 de maio de 2026 | Juma Xipaia e Ivo Makuxi | Olho na Amazônia

Mineração ilegal de ouro na Amazônia brasileira

A alta dos preços do ouro intensifica uma lógica predatória que transforma rios em lama, fortalece redes ilegais e aprofunda a violência. Os efeitos não se restringem à Amazônia: atingem nossa água, nossos sistemas alimentares e exacerbam o colapso climático que já afeta cidades e periferias urbanas.

Sempre que o ouro volta ao centro da geopolítica global, a Amazônia retorna à mira. A guerra entre os Estados Unidos e o Irã recolocou o metal no radar dos mercados, investidores e da indústria extrativa. Mas, do nosso ponto de vista, isso não parece uma oportunidade. Parece uma crescente pressão sobre os territórios, assédio a líderes comunitários, avanço da mineração ilegal, violência e a reciclagem de antigos projetos de mineração como se fossem soluções inevitáveis.

Enquanto milhares de soldados e civis são mortos ou feridos do outro lado do mundo, empresas agem rapidamente para desbloquear projetos que alimentam cadeias de suprimentos estratégicas em tempos de guerra. Nesse contexto, a Amazônia brasileira – um território vivo que abriga mais de 180 povos indígenas – está sendo mais uma vez tratada como zona de sacrifício. A escalada dos conflitos, a alta dos preços do ouro e a corrida por minerais críticos intensificam uma lógica predatória que transforma rios em lama, fortalece redes ilegais e aprofunda formas de violência que raramente entram nos cálculos econômicos, incluindo a violência contra meninas e mulheres.

Na região do Xingu, há planos para instalar a maior mina de ouro a céu aberto da história do Brasil, em uma área já devastada pela barragem de Belo Monte. Trata-se do Projeto Volta Grande, da empresa canadense Belo Sun Mining, que inclui mineração a céu aberto, uso de cianeto e uma barragem de rejeitos. Caso essa estrutura se rompa, a destruição de um dos maiores rios da Amazônia será irreversível. Não há nada de “belo” no projeto da Belo Sun: ele avança por uma região já marcada pelo desmatamento, perda de biodiversidade, conflitos socioambientais e ausência de consulta adequada às populações afetadas. O projeto tem como alvo a Volta Grande do Xingu, uma área que já sofre com a redução da vazão do rio, a ruptura dos ciclos ecológicos e o agravamento da insegurança alimentar.

Em Roraima, no Território Indígena Raposa Serra do Sol, operações contra a mineração ilegal identificaram tanques de cianeto utilizados no processamento de ouro no município de Normandia. A mesma substância, que se planeja utilizar no projeto da Belo Sun, ameaça rios, solos, fauna e flora, e as comunidades que dependem dessas águas. Investigações também revelaram a dimensão transfronteiriça do problema, com a atividade de mineração ao longo da fronteira com a Guiana impactando terras indígenas no Brasil. No Território Indígena Yanomami, a alta dos preços do ouro continua a alimentar a mineração ilegal, contaminando rios com mercúrio e financiando redes criminosas dentro e fora da floresta.

Por isso, é um erro tratar a alta dos preços do ouro como mera tendência de mercado. O ouro percorre rotas obscuras, confunde a linha entre legalidade e ilegalidade e se conecta a cadeias de suprimentos globais opacas.

O impacto não se limita aos povos da Amazônia: atinge a água, os alimentos, a violência e agrava o colapso climático que já afeta as cidades e as periferias urbanas.

Chamam a isto desenvolvimento, mas desenvolvimento para quem? Os nossos territórios continuam a ser destruídos por projetos de grande escala que violam direitos e destroem culturas, conhecimentos ancestrais e corpos.

Em nome da transição energética e do progresso, a floresta está sendo impulsionada para uma nova corrida por recursos naturais, motivada pela mineração, soja, crime organizado, barragens e ferrovias.

Essa lógica deve ser rejeitada. A Amazônia não é um depósito de ouro, energia e “potencial econômico” à disposição de mercados em pânico ou potências em guerra. Seu valor reside naquilo que sustenta a vida: rios, chuvas, alimentos, estabilidade climática, biodiversidade e modos de vida.

Se o mundo quer falar de segurança em tempos de crise, sua primeira obrigação deveria ser defender o que ainda mantém o planeta habitável. Explorar e destruir a Amazônia para alimentar arsenais, especulação e promessas vazias de progresso é escolher a escassez como projeto político.

Vivemos em estado de guerra há séculos. E assim como a destruição de recursos minerais na Amazônia produz efeitos que vão muito além de nossos territórios, as guerras em curso também não se restringem às suas fronteiras: elas reverberam pelo clima, pela economia e pela crescente pressão sobre regiões tratadas como reservas para pilhagem.

Juma Xipaia

Chefe da aldeia Kaarimã no Território Indígena Xipaya; ex-Secretário Nacional de Articulação e Promoção dos Direitos Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas do Brasil.

Ivo Makuxi

Advogada indígena Makuxi e membro do Comitê Executivo do Instituto Brasileiro de Direitos Humanos (IBDH).

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