A ameaça representada pela mineradora canadense Belo Sun para a Volta Grande do Xingu O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) do Brasil solicitou à Justiça a suspensão, “com a urgência que o caso exige”, de uma decisão provisória do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) que restabeleceu um processo. Licença de instalação para a enorme mina de ouro que a empresa canadense Belo Sun planeja construir no Volta Grande do Xingu., uma das regiões com maior biodiversidade da floresta amazônica e uma área já severamente afetada pela barragem hidrelétrica de Belo Monte.
A PGR também pede que a suspensão permaneça em vigor “até que seja proferida uma sentença final e irrecorrível no processo em questão”. Em outras palavras, até que todos os recursos no caso sejam definitivamente decididos pelo TRF1, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, potencialmente, pelo próprio Supremo Tribunal Federal.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou o pedido ao Supremo Tribunal Federal em 1º de setembro. O pedido foi assinado pelo Procurador-Geral Adjunto Hindenburgo Chateaubriand Filho. O Procurador-Geral Paulo Gonet Branco informou às partes envolvidas no caso que se considera impedido de atuar na questão após SUMAÚMA revelou que Belo Sun contratou o filho, Pedro Gonet Branco, como advogado.
A Procuradoria-Geral da República levou a questão ao Supremo Tribunal Federal por meio de um mecanismo legal conhecido como Suspensão de Medidas Cautelares. De acordo com as normas do Tribunal, pedidos desse tipo são decididos exclusivamente por seu presidente – atualmente o Ministro-Chefe Edson Fachin, que possui um histórico de decisões e votos favoráveis aos povos indígenas. Não há, contudo, um prazo definido para que Fachin se pronuncie sobre o pedido da Procuradoria-Geral.
O risco para as comunidades indígenas no Volta Grande do Xingu é precisamente uma das razões citadas por Chateaubriand ao pedir a intervenção do Supremo Tribunal. Na petição de 29 páginas, ele resume o caso e lembra que os procuradores federais já haviam demonstrado perante a TRF1 que o direito das comunidades indígenas afetadas à consulta livre, prévia e informada havia sido violado.
Mesmo assim, O juiz Flávio Jardim, da TRF1, relator do caso, concluiu que a Belo Sun cumpriu suas obrigações de consulta., tendo “aparentemente garantido informações adequadas, deliberação interna e participação culturalmente apropriada”. Na decisão que valida as consultas e, consequentemente, a licença de instalação emitida pela Secretaria do Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) do Estado do Pará, Jardim utiliza o advérbio “aparentemente” três vezes – um termo que, em português, expressa incerteza. Ele também proferiu outras decisões controversas envolvendo a Belo Sun, Como a SUMAÚMA já havia relatado anteriormente..
Por essa razão, o recurso ao Supremo Tribunal é “a única via capaz de garantir, com a urgência que o caso exige, a interrupção imediata dos efeitos de uma decisão que põe em risco a legalidade do processo de licenciamento ambiental” da mina de ouro “e os direitos das comunidades indígenas envolvidas”, enfatizou Chateaubriand.
A mina de ouro, que a Belo Sun denominou Projeto Volta Grande, é anunciada como a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil. Se construída, afetará uma área já bastante impactada pela poluição. Hidrelétrica de belo monte veriam a construção de uma barragem de rejeitos tóxicos pelo menos três vezes maior que a barragem de Brumadinho da Vale – cujo colapso em 2019 matou 272 pessoas e milhares de seres não humanos.
Os riscos para a natureza na região do Volta Grande do Xingu também não passaram despercebidos pelo vice-procurador-geral. “O ‘Projeto Volta Grande’ prevê a construção de uma barragem de rejeitos com capacidade para 35 milhões de metros cúbicos”, afirma ele no processo que agora está em análise por Fachin. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, 35 milhões de metros cúbicos de água seriam suficientes para encher 14,000 mil piscinas olímpicas, com 50 metros de comprimento, 25 metros de largura e pelo menos dois metros de profundidade, de acordo com os padrões da Federação Internacional de Natação.
A mina também “envolveria o uso de substâncias nocivas como o cianeto” e abriria uma enorme ferida em uma área que é um “refúgio ecológico de singular importância, classificado como de 'importância biológica extremamente alta' pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil”, observou Chateaubriand. “As circunstâncias, como apresentadas, exigem cautela.”
A chegada do caso Belo Sun ao Supremo Tribunal foi recebida com satisfação pelos movimentos que se opõem aos planos da mineradora canadense, após uma série de decisões consideradas, no mínimo, controversas pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região nos últimos meses.
“Recebemos com esperança a chegada do caso Belo Sun ao Supremo Tribunal Federal do Brasil. […] Após tantos anos de violações e irregularidades que marcaram o processo de licenciamento ambiental do projeto, esperamos que o Supremo Tribunal Federal examine o caso com a atenção e a responsabilidade que ele exige”, afirmou a Coalizão pelo Xingu, pela Vida e pelos Direitos dos Povos, uma rede de organizações e ativistas que trabalham para a proteção do rio, em comunicado.
Questionada pela SUMAÚMA, a Belo Sun afirmou em comunicado que “entende que não há motivos que justifiquem uma medida urgente para suspender novamente a licença de instalação do Projeto Volta Grande, que foi restabelecida há sete meses”. A mineradora canadense declarou que “continuará participando do processo de conciliação e das discussões técnicas em andamento, em diálogo com a Funai, as demais instituições envolvidas e as comunidades indígenas”.
A Funai, no entanto, já declarou publicamente em um documento técnico divulgado no início de agosto que “a licença de instalação […] deve ser suspensa ou anulada até que as questões” identificadas por sua equipe técnica em relação à proteção dos direitos indígenas sejam resolvidas.
O caso chega ao presidente do Supremo Tribunal Federal em um dos momentos mais delicados da história da instituição, enquanto Fachin lida com disputas internas – e uma enorme crise de credibilidade – decorrentes de suspeitas de que o ministro Alexandre de Moraes possa ter agido em nome do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Suspeitas de envolvimento indevido com Vorcaro também recaem sobre outros ministros do Supremo Tribunal Federal – particularmente Dias Toffoli – bem como sobre os filhos de Luiz Fux e Nunes Marques.
Além disso, há alegações de conduta politicamente tendenciosa na forma como o juiz André Mendonça, responsável pela supervisão das investigações do Banco Master e outrora descrito como “terrivelmente evangélico”, conduziu o caso. Em reportagens publicadas em 10 de setembro, piauí revista Revelou-se que Mendonça optou por tornar públicas as suspeitas levantadas pela Polícia Federal envolvendo Moraes, um ferrenho opositor do Bolsonarismo, enquanto mantinha em sigilo um relatório da mesma Polícia Federal referente a outro juiz, Dias Toffoli.
Fux e Nunes Marques – dois juízes que se alinharam ao Bolsonarismo em decisões importantes – têm filhos que são advogados e que mantiveram laços com o Banco Master. O escritório de advocacia de Kevin de Carvalho Marques recebeu mais de 280,000 mil reais de uma empresa de consultoria que fazia negócios com o banco. Rodrigo Fux, por sua vez, participou de eventos com Daniel Vorcaro. – incluindo um degustação de uísque As despesas foram pagas pelo banqueiro em Nova York, evento para o qual Luiz Fux também teria sido convidado. As alegações envolvendo Moraes e Mendonça serão analisadas pelo Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira, 15 de setembro, e novamente na quarta-feira, 23 de setembro.
Apesar das suspeitas de conduta inaceitável envolvendo alguns de seus juízes, a instituição continua sendo vista como a última fonte de esperança para grupos minoritários e para aqueles que enfrentam poderosos interesses políticos e econômicos.




