Belém, Brasil – Ontem, movimentos indígenas da Amazônia celebraram uma vitória política contra projetos de mineração de propriedade canadense. No estado do Amazonas, uma decisão do Tribunal de Apelações da 1ª Região (TRF1) fortaleceu a resistência do povo Mura contra o Projeto Potássio Autazes, da Potássio do Brasil, subsidiária brasileira da canadense Brazil Potash. No estado do Pará, comunidades do Volta Grande do Xingu conseguiram adiar uma audiência sobre a licença da Belo Sun, mineradora canadense que busca construir a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil em uma região já severamente impactada pela megabarragem de Belo Monte.
Os dois casos refletem o crescente escrutínio judicial sobre as empresas de mineração canadenses que buscam expandir a exploração mineral na Amazônia sob a justificativa de desenvolvimento e segurança econômica. A Potássio do Brasil pretende extrair potássio de Autazes, região habitada pelo povo Mura. A Belo Sun pretende extrair ouro no Volta Grande do Xingu, uma das regiões mais ecologicamente sensíveis e biodiversas da Amazônia brasileira.
Embora os procedimentos legais sejam diferentes, ambos os casos expõem uma preocupação comum levantada pelos povos indígenas e organizações aliadas: empresas de mineração que tentam fazer passar o apoio de grupos indígenas pró-mineração por consentimento coletivo da comunidade. Em ambos os processos, as comunidades que se opõem aos projetos denunciam falhas na Consulta Livre, Prévia e Informada, um direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. Elas também questionam quem tem legitimidade para falar em nome dos povos afetados e qual órgão – estadual ou federal – tem autoridade sobre o licenciamento ambiental.
No caso Mura, a TRF1 reconheceu que uma organização indígena pró-projeto não pode falar em nome de aldeias que não a reconhecem como sua representante. A decisão também indicou que órgãos públicos, incluindo o Instituto do Meio Ambiente do Amazonas (IPAAM) e a Agência Nacional de Mineração (ANM), não podem atuar em defesa dos interesses econômicos da Potássio do Brasil em processos judiciais. Para as comunidades, essa decisão deixa claro que a consulta não pode ser conduzida por meio de interlocutores escolhidos pela empresa ou por instituições que não representam todos os povos afetados. Por essa razão, o processo de consulta indígena do projeto pode ser contestado e anulado.
“Acordar com essa notícia nos trouxe uma alegria imensa. Cada vitória, pequena ou grande, fortalece ainda mais o nosso trabalho. Esta é a resposta. Nós somos a resposta, porque se trata de defender a vida, o nosso lar e o direito dos nossos filhos de ainda terem um pedaço de terra”, disse Milena Mura, uma das líderes da resistência contra o Projeto Potássio Autazes.
Na região do Volta Grande do Xingu, o movimento de resistência à Belo Sun reivindicou uma vitória após o tribunal retirar a audiência da pauta para analisar, em primeiro lugar, os pedidos pendentes apresentados no caso. Embora a decisão não suspenda o projeto, ela concede às comunidades um tempo crucial para apresentar aos juízes evidências de falhas no processo de consulta, dados sobre os impactos cumulativos da mina de ouro junto à barragem de Belo Monte e análises sobre os riscos socioambientais de uma mina de ouro em grande escala no rio Xingu.
“Ainda existem muitas questões obscuras que precisam ser esclarecidas. Este adiamento nos dá tempo e fôlego para mostrar à sociedade e aos juízes o que a mineração significa em uma região já punida por Belo Monte. Para nós, foi uma vitória”, disse Ana Laide, do Movimento Xingu Vivo Para Sempre.
Para Amazon WatchAs decisões favoráveis ao povo Mura fortalecem o caso contra a Belo Sun. “Se os tribunais reconheceram, no caso Mura, que órgãos públicos não podem atuar como defensores de uma empresa e que nenhuma organização pode se sobrepor à decisão coletiva das comunidades, o mesmo raciocínio deve ser aplicado à Belo Sun no Volta Grande do Xingu, onde um órgão do governo federal, como o INCRA (Instituto Nacional de Reforma Agrária), não só apoia o projeto como também cedeu irregularmente terras públicas à mineradora”, afirmou Ana Alfinito, assessora jurídica da empresa. Amazon Watch.





