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Instituição que protege os direitos indígenas no Brasil sob ataque

3 de abril de 2018 | Christian Poirier | De olho na amazônia

O movimento indígena brasileiro está liderando a luta para defender a FUNAI de ataques políticos. Crédito da foto: Gert-Peter Bruch / Planete Amazone

Ao testemunharmos um ataque contínuo aos alicerces de nossas sociedades, recorremos cada vez mais a instituições críticas para defender os direitos e proteções que sustentam a democracia. No entanto, são precisamente essas organizações, que foram criadas por meio de movimentos prolongados e populares com base nos direitos, que são mais vulneráveis ​​a ataques.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, uma instituição vital encarregada de garantir o equilíbrio ecológico para o benefício do público, está sendo sistematicamente desmantelada pelo governo Trump para favorecer a indústria destrutiva. E no Brasil, os governantes econômicos e políticos do país - agindo sob a longa sombra de Michel Temer, cuja ascensão à presidência minou profundamente a democracia - estão travando uma campanha sustentada e insidiosa para enfraquecer instituições-chave e desmantelar os direitos constitucionais à terra. O órgão federal conhecido como FUNAI, ou Fundação Nacional do Índio, é um exemplo disso.

A função da FUNAI é proteger e promover os direitos dos povos indígenas do Brasil. Entre suas principais responsabilidades está a identificação, titulação e supervisão da vasta gama de territórios indígenas do país, ao mesmo tempo que ajuda a garantir o desenvolvimento culturalmente adequado das comunidades nativas. No entanto, o direito às terras ancestrais livres de atividade industrial - 98.5% das quais pertencem aos diversos ecossistemas da Amazônia - representa um obstáculo para a expansão do crescente setor de agronegócios do Brasil. Esse poderoso lobby dirigiu seus aliados parlamentares e judiciais a neutralizar a eficácia da FUNAI, reduzindo seu orçamento, comprometendo sua independência e minando sua capacidade de cumprir seu mandato constitucional.

O efeito dessas regressões tem sido paralisante: a FUNAI não pode mais manter equipes de campo em postos essenciais para a defesa de terras indígenas sob grave ameaça de invasão violenta. Os técnicos da FUNAI - servidores públicos essenciais e comprometidos com sua missão - estão desmoralizados. E os processos de titulação de terras foram congelados pelo “Parecer Normativo 001” do Procurador-Geral (AGU) (Parecer Normativo 001/2017), um decreto errôneo que devasta os direitos à terra nativa.

O parecer jurídico da AGU instrui todas as agências federais a obedecer a um procedimento altamente contencioso e inconstitucional "prazo" (Marco temporal) cláusula, que apenas reconhece as reivindicações de terras de povos indígenas que continuamente ocuparam seus territórios desde a consagração da Constituição de 1988, ignorando situações comuns em que comunidades foram brutalmente expulsas de suas terras antes dessa data. Essa cláusula obriga os funcionários da FUNAI a desconsiderar 748 casos de demarcação de terras tribais que estão atualmente pendentes na instituição, essencialmente amarrando as mãos e estabelecendo um precedente perigoso que poderia ver a proteção dos direitos à terra extirpada em territórios já titulados.

Justamente porque o parecer da AGU viola descaradamente direitos constitucionais, o Ministério Público Federal (MPF) exigiu sua revogação, alegando que anula a autoridade da FUNAI de salvaguardar os direitos dos povos indígenas, ao mesmo tempo em que prejudica o recurso judicial em detrimento dos interesses da nação. Além disso, o MPF argumenta que, ao sugerir que as demarcações de terras indígenas pendentes sejam paralisadas e os processos passados ​​de titulação de terras examinados, a opinião da AGU aumentou a ameaça de violência e conflito.

Sem o apoio significativo de defensores dentro do governo, os povos indígenas do Brasil são cada vez mais forçados a se defenderem, defendendo suas terras e modos de vida contra atores poderosos e beligerantes, com resultados muitas vezes mortais. Este cenário tem implicações de longo alcance: muitas das vastas florestas da Amazônia brasileira ainda estão de pé graças ao manejo incansável de seus habitantes originais. Ainda assim, sob o antagonismo do presidente Temer, os povos indígenas e seus defensores são cada vez mais vítimas de atos de violência brutal e intimidação, que são realizados com impunidade. O recente assassinatos de defensores das terras indígenas vocais e o queima de postos de observação remotos da FUNAI são pontos de inflamação desta realidade sombria.

Ao defender a revogação imediata do parecer da AGU, o MPF mostra que manter uma cláusula legal inconstitucional não apenas prejudica injustamente os direitos das terras indígenas, mas também expõe o governo brasileiro a ser responsabilizado internacionalmente. UMA decisão recente da Corte Interamericana de Direitos Humanos conceder ao povo Xucuru do Brasil US $ 1 milhão por violações de direitos à terra apoiadas pelo governo é um exemplo de apelos globais por responsabilização.

A denúncia internacional é uma ferramenta importante para conter a cumplicidade do governo brasileiro na escalada da crise atual de direitos humanos. Enquanto as vozes dos defensores da terra são brutalmente silenciadas e seus defensores institucionais destituídos de autoridade, os autores desses ataques devem ser combatidos em todos os níveis, incluindo o da opinião pública global. Nossa condenação coletiva dessas reversões inaceitáveis ​​- dos EUA para o Brasil - é um componente essencial para uma resistência robusta neste momento crítico.

O movimento indígena do Brasil, seus constituintes e suas terras não serão capazes de resistir à intensificação do ataque de forças cada vez mais poderosas e destrutivas por conta própria. Devemos nos posicionar ao lado deles, exigindo não apenas a efetivação do direito à terra, mas também a defesa de instituições críticas como a FUNAI.

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