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Durante a Cúpula do Clima, povos indígenas interceptam barcaças de soja no rio Tapajós e exigem o fim da Ferrovia do Ferrogrão.

“Não pode haver uma solução climática real enquanto os rios amazônicos forem tratados meramente como corredores de grãos e o povo do Tapajós continuar a ter negado o seu direito ao consentimento livre, prévio e informado.”

7 ° de novembro de 2025 | Para divulgação imediata


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Santarém (Pará, Brasil) – Enquanto líderes mundiais debatiam políticas climáticas em Belém (PA), mais de 300 indígenas e aliados de movimentos sociais realizaram o 8º Grito Ancestral no Rio Tapajós, na região do Baixo Tapajós, oeste do Pará. A ação pacífica ocorreu em território Tupinambá, dentro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, e incluiu a ocupação simbólica de barcaças de carga, em protesto contra a expansão do sistema hidroviário Arco Norte e a proposta da ferrovia Ferrogrão (EF-170).

Ao longo de cinco horas, quatro embarcações de apoio e seis barcos menores cercaram três comboios de barcaças de soja, enquanto líderes indígenas subiam nas estruturas segurando faixas com os dizeres “Não ao Ferrogrão”, “Alimentos sem Veneno” e “Agro passa, destruição fica”.

O protesto permaneceu inteiramente pacífico e público, servindo como uma poderosa declaração das comunidades indígenas e tradicionais da Amazônia e do Cerrado sobre os impactos dos corredores de exportação de grãos do Brasil nos rios, na pesca, nos territórios e nos meios de subsistência locais.

“O Grito Ancestral é a nossa mensagem para os líderes mundiais”, disse Marília Sena, uma líder Tupinambá. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos apenas como mercados ou corredores de transporte de soja, portos e ferrovias. Queremos que as pessoas vejam aqueles que estão aqui há séculos, cuidando da floresta e do rio. Preservar o Tapajós é condição essencial para qualquer compromisso climático sério.”

Tapajós no centro da expansão hidroviária do Brasil

O protesto ocorreu em um dos rios mais estratégicos da agenda de infraestrutura do Brasil. O Rio Tapajós nasce no Mato Grosso, atravessa o Pará e deságua no Rio Amazonas próximo a Santarém. Sua bacia representa cerca de 6% de toda a bacia amazônica e abriga povos indígenas, afrodescendentes e comunidades rurais. quilombola comunidades, famílias ribeirinhas e importantes áreas de conservação, como a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e a Floresta Nacional do Tapajós.

Apesar disso, o rio tornou-se alvo de sucessivos projetos portuários, hidroviários e terminais privados. O Tapajós está entre os rios incluídos no Decreto Federal nº 12,600/2025, que integra o Plano Hidroviário Arco Norte do governo federal, concebido para transportar produtos agrícolas do centro do Brasil para portos de exportação em Santarém, Itaituba/Miritituba, Barcarena e áreas circunvizinhas.

Entretanto, o projeto Ferrogrão (EF-170) – desenvolvido em consonância com os interesses de grandes empresas do agronegócio como Cargill, Bunge, Amaggi, ADM e Louis Dreyfus – propõe uma ferrovia de 933 quilômetros ligando Sinop (MT) a Miritituba (PA). Segundo estudos oficiais, a ferrovia poderia aumentar o fluxo de exportações de grãos ao longo do corredor do Tapajós em até 600% até 2049.

Para o povo Tupinambá e outras comunidades do Baixo Tapajós, isso significa intensificação do tráfego de barcaças, aumento da pressão para operações de dragagem, detonação de formações rochosas sagradas, maiores níveis de poluição e conflito, e novos projetos sendo licenciados sem a devida consulta.

“O que está em jogo é a privatização dos nossos rios”, disse Gilson Tupinambá, coordenador do Conselho Indígena Tupinambá (CITUPI). “Os rios Tapajós, Tocantins e Madeira estão sendo transformados em corredores para exportação de soja e mineração, enquanto nossas aldeias sofrem com água contaminada, menos peixes e mais violência.”

Governo sinaliza retomada do Ferrogrão após COP30

O protesto coincide com notícias de que o governo federal brasileiro planeja retomar o projeto ferroviário Ferrogrão após a COP30, conforme relatado por Valor EconômicoA Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) pretende concluir os estudos técnicos e submetê-los ao Tribunal Federal de Contas (TCU), enquanto o Ministério dos Transportes prepara um leilão de concessão para 2026 e uma série de apresentações internacionais para investidores – incluindo uma parada na China – para apresentar o projeto a potenciais financiadores.

“É uma contradição o governo falar sobre compromissos climáticos em Belém enquanto acelera a construção de uma ferrovia destinada a baratear as exportações de soja, expandir os portos no Tapajós e pressionar ainda mais nossas terras”, disse Alessandra Korap Munduruku, uma importante líder indígena. “Se querem falar sobre clima, primeiro precisam ouvir as pessoas que vivem onde esses trens e hidrovias passarão.”

Os povos do Baixo Tapajós exigem revisão do projeto e proteção territorial.

Na semana que antecedeu o protesto, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à aldeia de Vista Alegre do Capixauã, o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA) entregou um documento que delineava as principais reivindicações de 14 povos indígenas do Baixo Tapajós, representando 15 territórios e 126 aldeias em Santarém, Belterra e Aveiro.

A carta exige a demarcação urgente de terras indígenas (quatro das quais já estão em estágios avançados), denuncia a escalada dos conflitos fundiários ligados à expansão da soja, ao Ferrogrão e a projetos de dragagem, e solicita a criação de um Distrito Sanitário Indígena (DSEI) e de um escritório regional da FUNAI, a agência brasileira para assuntos indígenas, em Santarém.

O documento alerta que a combinação de hidrovias, ferrovias e portos privados "ameaça diretamente a vida dos povos indígenas e o equilíbrio ecológico da região" e insta o governo federal a repensar seu modelo de infraestrutura voltado para a exportação.

Segundo a CITA, “não pode haver uma solução climática real enquanto os rios amazônicos forem tratados meramente como corredores de grãos e os povos do Tapajós continuarem a ter negado o seu direito ao consentimento livre, prévio e informado”, citando a Convenção 169 da OIT.

Caravana de Respostas: De Santarém a Belém

O 8º Grito Ancestral também marcou o início da próxima etapa da mobilização. No sábado, 8 de novembro, a Caravana da Resposta partirá de Santarém às 5h30 (horário de Brasília), iniciando sua jornada fluvial até Belém e conectando o protesto do Tapajós à participação direta dos povos indígenas e tradicionais na COP30, a Cúpula dos Povos, e na COP dos Povos.

A jornada, que começou de ônibus em Sinop (Mato Grosso) no dia 4 de novembro, reúne centenas de líderes indígenas e comunicadores comunitários que percorrem a mesma rota usada pelo agronegócio para exportar soja – mas com o propósito oposto: defender rios, denunciar violações e promover alternativas enraizadas na agroecologia, soberania alimentar, proteção territorial e respeito às comunidades tradicionais.

Ao longo do percurso, a caravana realizará assembleias, plenárias, rodas de diálogo e atividades culturais abordando temas como hidrovias, Ferrogrão, operações de dragagem, regulamentação da soja pela UE e demarcação de terras. Alimentos agroecológicos doados por pequenos agricultores e comunidades tradicionais abastecerão a Cozinha Solidária da Cúpula dos Povos em Belém.

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