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Incêndios na Amazônia estão aumentando novamente – mas a perda de florestas está diminuindo. O que está acontecendo?

12 de setembro de 2024 | Grace Murray | O Bureau de Jornalismo Investigativo

Foto: Victor Moriyama / Greenpeace

“Não há segurança climática para o mundo sem uma Amazônia protegida”, disse Luiz Inácio Lula da Silva (Lula) na conferência climática COP27 em novembro de 2022, semanas antes de tomar posse como presidente do Brasil.

Desde que assumiu o cargo em janeiro de 2023, Lula parece ter seguido essas palavras com ações efetivas: em junho do ano passado, ele revelou um plano que ganhou as manchetes para acabar com o desmatamento da Amazônia no Brasil até 2030. Em seu primeiro ano no poder, a taxa de perda de floresta na região caiu pela metade.

Mas nos últimos meses, tipicamente o pico da temporada anual de incêndios, a Amazônia viu incêndios recordes. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil mostraram mais de 38,000 incêndios na Amazônia no mês passado – o maior número de agosto em 14 anos. Isso se seguiu a quase 11,500 em julho, o maior em quase duas décadas. E os números de setembro (mais de 23,000 nos primeiros 11 dias) já estão perto de superar os do ano passado.

No mês passado, incêndios se espalharam da Amazônia para Brasília e São Paulo. Voos foram cancelados e escolas fechadas.

Então o desmatamento está diminuindo enquanto os incêndios estão aumentando. O que está acontecendo?

A primeira coisa a entender é que o desmatamento (geralmente definido como a conversão permanente de floresta para outro uso) tem várias causas diferentes, como exploração madeireira, construção de estradas, mineração e agricultura. Muitas delas estão sendo enfrentadas na Amazônia brasileira – e os incêndios agora são responsáveis ​​por uma parcela maior da perda florestal geral.

As autoridades brasileiras atribuíram o aumento alarmante de incêndios florestais ao aquecimento global e ao padrão climático El Niño, que exacerbaram as secas do início do ano, cujos efeitos ainda estão sendo sentidos. No entanto, especialistas suspeitam que a atividade humana também pode ser um fator-chave.

Uma análise recente do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, uma ONG, mostra que a grande maioria dos incêndios de agosto ocorreu em áreas agrícolas, levantando suspeitas entre ambientalistas de que algumas das atividades podem ter sido intencionais.

Paula Vargas, diretora do programa Brasil na Amazon Watch, uma ONG, disse ao TBIJ que fazendeiros muitas vezes iniciam incêndios deliberadamente, o que é ilegal no Brasil.

“Há investigações em andamento por autoridades brasileiras sobre se fazendeiros organizaram novamente um 'dia do fogo' este ano”, disse Vargas. Quatro pessoas foram presas em conexão com o início dos incêndios que se espalharam para São Paulo.

Vargas disse que o governo de Jair Bolsonaro, antecessor de Lula, deixou um legado de atividades criminosas, como invasões de terras e desmatamento na Amazônia.

Bolsonaro cortou verbas para a aplicação da lei ambiental e encorajou ativamente a conversão de florestas em pastagens para criação de gado. Ele supervisionou aumentos anuais no desmatamento de 2019 a 2022.

Perigo global

Em artigo na revista Ecologia e Evolução da Natureza, um grupo de acadêmicos internacionais alerta sobre os perigos dos incêndios florestais descontrolados para a degradação florestal, emissões de carbono, perda de biodiversidade e danos às comunidades indígenas.

Toda essa destruição e degradação florestal tem consequências severas para o clima global. A floresta amazônica historicamente tem atuado como um sumidouro de carbono, armazenando potenciais emissões em suas árvores, solos e vegetação. Mas a destruição desenfreada nos últimos anos significa que, em algumas partes, a floresta agora libera mais carbono do que absorve.

A chave para deter a perda de florestas, acrescentou Vargas, é o apoio aos povos indígenas, que são reconhecidos como os melhores protetores das florestas e salvaguardam cerca de 80% da biodiversidade do planeta.

Kátia Silene Akrãtikatêjê, a primeira liderança feminina da comunidade Gavião, que alegou que suas terras estavam sendo invadidas por fazendeiros, disse ao TBIJ em 2022: “Nós, povos indígenas, estamos sendo cercados, sufocados em uma ilha”.

Na época em que Bolsonaro assumiu o cargo, o TBIJ começou a investigar as ligações entre desmatamento e criação de gado, rastreando vasta devastação ambiental até produtos vendidos em lojas de rua na Europa e no Reino Unido. Usando dados compartilhados exclusivamente pela Trase, um projeto de pesquisa da cadeia de suprimentos, o TBIJ relatada pela primeira vez que até 5,800 km² de floresta estavam sendo desmatados na Amazônia e em outras áreas todos os anos para a criação de gado.

E no ano passado TBIJ revelado que, para atender à demanda estrangeira, pelo menos 17,000 km² – mais de 800 milhões de árvores – foram perdidos somente em três dos principais estados produtores de carne bovina da Amazônia brasileira nos seis anos até 2022.

Em 2019, o primeiro ano da presidência de Bolsonaro, imagens da Amazônia em chamas chocaram o mundo, até mesmo atraindo uma ameaça de ação comercial do presidente francês Emmanuel Macron. (Embora não de Boris Johnson, cuja oposição à ideia lhe rendeu agradecimentos pessoais de Bolsonaro, TBIJ revelou mais tarde.)

O perigo agora é que a Amazônia esteja novamente em chamas, presidida pelo sucessor de Bolsonaro. E cientistas alertaram que, apesar dos esforços de desmatamento de Lula, incêndios recentes podem enfraquecer a percepção pública de seu comprometimento em proteger a região.

A conferência COP30 do ano que vem, realizada na cidade brasileira de Belém, trará um renovado escrutínio internacional. Como o próprio presidente disse, a sobrevivência do Brasil e do mundo depende da preservação da Amazônia.

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