Relatores especiais da ONU solicitados a investigar irregularidades na aprovação de projetos
Um documento entregue às Nações Unidas na última quinta-feira, 1º de abril, afirma que falhas no processo de licenciamento ambiental da polêmica barragem de Belo Monte no Brasil foram esquecidas devido à pressão política do governo. A denúncia documenta a natureza ilegal e arbitrária da aprovação do projeto e como a pressão política foi exercida sobre o pessoal de licenciamento que questionou as irregularidades no processo de licenciamento.
Mais de 100 movimentos sociais, organizações e sindicatos que representam mais de 40 comunidades em 11 cidades assinaram a denúncia, que também destaca as violações de direitos humanos que ocorreram e ocorrerão se o projeto for construído. A denúncia afirma que os oponentes do projeto receberam ameaças de morte e intimidação como resultado de sua oposição.
Violações legais e pressão política
A Usina Hidrelétrica de Belo Monte seria construída na região amazônica, próximo à cidade de Altamira, no Pará. A construção envolverá a escavação de um terreno comparável ao movimentado para o Canal do Panamá e incluirá a construção de dois reservatórios artificiais, inundando 516 km2. Toda a bacia do rio Xingu será afetada, uma área que abrange 30 terras indígenas, incluindo quatro reservas extrativistas e oito unidades de conservação ambiental.
Em 1º de fevereiro de 2010, o IBAMA emitiu a licença provisória para a construção da usina hidrelétrica. O documento hoje encaminhado à ONU denuncia irregularidades que foram ignoradas pelos dirigentes do Ibama, como a falta de consulta prévia às comunidades afetadas e a fragilidade do Estudo de Impacto Ambiental do projeto.
A pressão política exercida para obter a aprovação do projeto independentemente das irregularidades do projeto é evidente. Apenas dois dias antes da concessão da licença, a própria equipe técnica do IBAMA assinou uma nota afirmando claramente que “não há evidências suficientes para demonstrar a viabilidade ambiental do projeto”. Dois dias depois, o procurador-geral brasileiro ameaçou processar os promotores federais do Pará caso questionassem a legalidade da licença, em uma ação considerada arbitrária e intimidadora pela liderança do Ministério Público Federal.
“Para nós, fica claro que os interesses do governo e das grandes empresas se sobrepõem à lei e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário”, disse Antonia Melo, uma das líderes do Movimento Xingu Para Sempre Viva, rede que reúne mais de 150 organizações , movimentos sociais e associações comunitárias.
Ameaças de morte
Melo está em risco por causa de sua oposição à construção da usina. “Não saio mais de casa e mal ando na rua com meus filhos”, diz ela. Por trás das ameaças a Antonia e outros ativistas - como Dom Erwin, bispo do Xingu - estão funcionários da empresa Camargo Corrêa e fazendeiros e políticos que controlam a mídia na região. “Em 2008, até funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) tentaram me intimidar, mas denunciamos a atuação de agentes ao Ministério Público Federal”, diz Melo.
As Nações Unidas
O documento foi enviado aos seguintes relatores especiais da ONU: direitos dos povos indígenas, direito à moradia, direito à alimentação, direito à saúde física e mental, direitos humanos, pessoas deslocadas, independência de juízes e advogados. As organizações que assinaram a denúncia pedem à ONU que peça ao governo brasileiro informações mais detalhadas sobre o projeto, que os relatores da ONU façam uma visita in loco ao Pará e que o Brasil reconsidere a construção da usina de Belo Monte. Se a construção começar, o Brasil poderá ser responsabilizado internacionalmente por crimes ambientais e abusos de direitos humanos causados pela barragem.
Motion Xingu Forever Alive, Justiça Global, Instituto Socioambiental, Sociedade Pará de Defesa dos Direitos Humanos
MEDIA CONTACTOS:
Antônia Melo, Movimento Xingu Vivo para Sempre (Movimento Xingu Vivo para Sempre) (93) 3515-2406, (93) 9135-1505
Raul Telles do Valle, ISA-Instituto Socioambiental (Instituto Socioambiental), (61) 3035-5114
Andressa Caldas, Justiça Global (Justiça Global) (21) 2544-2320 / 8187-0794
Roberta Amanajás, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos do Pará (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos) (91) 8162.1232 / (91) 3225.1950
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